Monografia parte 5 – Possíveis diálogos entre Psicologia e História

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A busca pela interdisciplinaridade na historiografia acadêmica começou na França, com um movimento específico – a Escola dos Annales, em 1929. Contrariando o modelo de história baseado apenas em fatos políticos, um grupo de autores buscou a ligação com a parte sócio-cultural, em um intercâmbio com a Sociologia, Filosofia, Arte, Literatura, e com a Psicologia.

Temos três gerações de autores em tal segmento. Inicialmente Lucien Febvre e Marc Bloch. A segunda geração é representada fundamentalmente por Fernand Braudel. A terceira traz principalmente Georges Duby, Jacques Le Goff e Michele Perrot, uma das primeiras mulheres a participar ativamente da historiografia. Os últimos já deram origem ao fenômeno da História Nova.

Febvre começou trabalhando a Geografia Histórica. Bloch dava mais ênfase para a Sociologia. É dele a frase: “A consciência humana é o objeto da História. As inter-relações, as confusões, as contaminações da consciência humana são, para a História, a própria realidade”[1]. Ambos se encontraram na Universidade de Estrasburgo, e lá a interdisciplinaridade começou a florescer.

As obras principais de Marc Bloch: os Reis Taumaturgos, a Sociedade Feudal e Apologia da História. Os Reis Taumaturgos tem um tema bem inóspito: a crença de que os reis de Inglaterra e França podiam curar os doentes de escrófula, uma doença de pele provocada pela tuberculose. É a origem da preocupação com a Psicologia coletiva e religiosa, com grande influência de Durkheim, e da História comparativa.

Febvre fez um estudo sobre Martinho Lutero, iniciando o percurso da Biografia Histórica, e usando a Psicologia Histórica unida à História das Religiões e ao estudo da História Social. Sua biografia não tratava do indivíduo, mas da perspectiva de ter por centro um problema, uma discussão temática.

Juntos criaram a Revista dos Annales, que passou a exercer o papel de unir os intelectuais que primavam pela interdisciplinaridade e pelos estudos de História Social e Econômica, além da aplicação da Psicologia Histórica.

Peter Burke enfatiza:

“Por ser Bloch, freqüentemente, identificado como um historiador econômico, vale a pena dar atenção ao seu interesse pela Psicologia, bastante óbvio não só nos Reis Taumaturgos, mas também significativo em sua conferência sobre a mudança tecnológica, pronunciada para um grupo de psicólogos profissionais e onde pregava a colaboração entre as duas disciplinas”.

A escola dos Annales, p. 34

 

A segunda fase dos Annales traz Fernand Braudel. Suas principais obras foram o Mediterrâneo e Civilização Material, Economia e Capitalismo, em três volumes. Braudel compara a História dos acontecimentos com as ondas do mar. O seu objetivo seria, portanto, a história de longa duração, os padrões que se mantém ao longo do tempo. A abordagem principal é via Ciências Sociais e Geografia.

A terceira geração, atuante a partir de 1968, revela características da contemporaneidade. É policêntrica, diversificada, fragmentada mas unificadora, busca novas abordagens. Há, o retorno da História das Mentalidades com Phillipe Ariès – e o nascimento da História da Infância, da Morte e da Sexualidade.

Phillipe Ariès, a partir da demografia histórica, retomou o rumo dos fundadores da Annales, investigando melhor a mudança de mentalidade coletiva, no rumo da Psicologia Histórica. Juntamente com Georges Duby, coordenou uma coleção de cinco volumes importantíssima e inédita: a História da Vida Privada, que trouxe a colaboração de autores como Paul Veyne, Peter Brown, a História das Mulheres de Michele Perrot, Gerard Vincent, entre outros.

Há alguns nomes importantes para a Psicologia Histórica ainda a relatar:

a) Robert Mandrou: estudou saúde, emoções e mentalidades na França Moderna (século XVII), seguindo a linha de Lucien Febvre.  Também abordou a bruxaria e a cultura popular.

b) Jean Delumeau: sua obra mais importante é a História do medo no Ocidente, onde fala da temática do medo especialmente em relação ao mar, fantasmas, pragas, fome, Satã, judeus e bruxas. No seu trabalho usou as idéias dos autores Erich Fromm e Wilhelm Reich.

c) Alain  Besançon: estudou a Rússia do século XIX, e começou a falar em História Psicanalítica, analisando a relação pai e filho de Ivã o Terrível e Pedro o Grande.

Um pouco mais específico, e já dentro da historiografia americana, temos um historiador e psicanalista que não cessa de levantar a bandeira da interação entre as duas disciplinas: Peter Gay. Em seu livro Freud para historiadores, temos as seguintes assertivas:

“O historiador profissional tem sido sempre um psicólogo – um psicólogo amador. Saiba isso ou não, ele opera com uma teoria sobre a natureza humana; atribui motivos, estuda paixões, analisa irracionalidades e constrói o seu trabalho a partir da convicção tácita de que os seres humanos exibem algumas características estáveis e discerníveis, alguns modos predizíveis, ou pelo menos decifráveis, de lidar com as suas experiências. Descobre causas, e a sua descoberta geralmente inclui os atos mentais. Mesmo construtores de sistemas materialistas, como Karl Marx, que sujeitam indivíduos às pressões inevitáveis das condições históricas, admitem e declaram que entendem o papel desempenhado pela mente. Entre todas as ciências auxiliares do historiador, a Psicologia é a sua ajudante principal, embora não reconhecida.”

Freud para Historiadores, p. 25

 Nesse sentido Peter Gay entra na discussão da Psico-história, muito popular nos Estados Unidos, que gerou tantas biografias feitas por historiadores e está bastante ligada à corrente metodológica da História Oral. Levantam-se questões como a influência da infância e da vida pessoal de grandes líderes nas suas decisões, e o uso da teoria freudiana das pulsões para determinar a causa de determinadas atitudes.

A história tem duas dimensões: a individual e a coletiva. Passando ao fenômeno de massas: o psicólogo Gustave Le Bon[2] e os historiadores Robert Darnton[3] e Georges Lefebvre[4], cada um em sua especialidade, analisaram o que leva a multidão a se agitar freneticamente e tornar-se sanguinolenta, ou a seguir um líder de forma passiva. Le Bon defende a irracionalidade das massas, Lefebvre mostra a lógica de suas ações, e Darnton mostra a parte cultural e a atuação da mídia.

Sobre a questão de como as massas recebem e processam a informação, temos Michel de Certeau[5]. Isso para citar alguns exemplos entre os historiadores, pois se a intenção for abordar a fundo a Psicologia Social teríamos que citar muitos outros, como por exemplo Moscovici[6] e Farr[7].

Existe mais uma vertente da Psicologia que bebeu na fonte da História para criar os seus preceitos. Carl Gustav Jung, que com seus conceitos de arquétipo, inconsciente coletivo, e o uso de símbolos e mitos, retoma muita da História do Período Clássico e Medieval.

Eis o que diz Phillipe Ariès sobre o tema:

“Mas o que é o inconsciente coletivo? Sem dúvida seria melhor dizer não-consciente coletivo. Coletivo: comum a toda uma sociedade em determinado momento. Não-consciente: mal percebido, ou totalmente despercebido pelos contemporâneos, porque , é óbvio, faz parte dos dados imutáveis da natureza, idéias recebidas ou idéias no ar, lugares-comuns, códigos de conveniência e de moral, conformismos ou proibições, expressões admitidas, impostas ou excluídas dos sentimentos e dos fantasmas. Os historiadores falam de “estrutura mental”, de “visão de mundo”, para designar os traços coerentes e rigorosos de uma totalidade psíquica que se impõe aos contemporâneos sem que eles saibam.”

História Nova, pp. 174-175

Para Jung, o Inconsciente Coletivo é constituído não por aquisições individuais, mas por um patrimônio coletivo da espécie humana. Esse conteúdo coletivo é essencialmente o mesmo em qualquer lugar e em qualquer época, não varia de pessoa para pessoa. Como o ar, este inconsciente é respirado por todo o mundo e não pertence a ninguém. Os conteúdos do Inconsciente Coletivo são chamados de Arquétipos, condições ou modelos prévios da formação psíquica em geral[8].

Nesse sentido entra a História: ela seria todo o conteúdo do Inconsciente Coletivo e dos Arquétipos[9], os mitos, imagens e símbolos que compõem a mitologia pessoal de cada um, e que se manifesta nos sonhos.

A psicóloga junguiana Sabina Vanderlei[10], do Rio de Janeiro, concedeu especialmente para esse trabalho um depoimento sobre a relação entre Jung e a História:

“Jung concebe o homem como um ser total, constituído de inúmeras partes que se interagem dinamicamente para formar esse todo. Não se pode olhar para o indivíduo isoladamente, assim como ele é entendido como um ser total, ele também está inserido num Todo, que pode ser chamado de Cosmo. Esse olhar total que Jung lançava em seus pacientes foi conseguido graças à sua observação clínica. Dentro da concepção de arquétipos, Jung percebeu que no período entre as Grandes Guerras Mundiais inúmeros conteúdos do inconsciente coletivo emergiram na consciência dos alemães, conforme escreve:

          “Já em 1918, pude verificar no inconsciente de alguns pacientes alemães certos distúrbios que não podiam ser atribuídos à sua psicologia pessoal. Tais fenômenos impessoais manifestavam-se sempre nos sonhos através de motivos mitológicos, como é também o caso, nas lendas e contos de fadas de todas as partes do mundo. Denominei esses motivos mitológicos de arquétipos., que são os modos ou formas típicas em que esses fenômenos coletivos são vivenciados.” (Jung, vol X/2, parágrafo 447).

        Essa correlação entre fatos históricos e manifestações do inconsciente é citada diversas vezes nas obras de Jung. Sua concepção da Psique como um todo formado por pares de opostos que lutam para compensarem-se mutuamente com o objetivo de equilibrarem-se faz com que observemos que o homem não é um ser isolado. Assim como a consciência compensa o inconsciente, também a personalidade total do indivíduo compensa os fatos que ocorrem no seu meio circundante. 

A Psicologia e a História são dois saberes que caminham juntos. Se a História olha para o coletivo, a Psicologia olha para o individual, são como dois lados de uma mesma moeda. O Psicólogo clínico, por exemplo, encontrará em seu consultório indivíduos queixosos de problemáticas individuais mas também ele é um produto social. A clínica, portanto, seria o reflexo de tudo aquilo que acontece naquela sociedade. Um caso de anorexia, por exemplo, chega até o consultório refletindo toda aquela mentalidade social de que a mulher tem que ter aquele corpo perfeito.

        A conseqüência da Psicologia individual é a História da humanidade. O que hoje lemos nos livros são resultados das ações dos nossos antepassados. Nossos filhos lerão os resultados de nossas ações. O homem holístico (do grego, holos = todo) age no meio e também sofre a ação deste. Nesse sentido, um psicólogo não pode desvincular-se dos acontecimentos atuais de sua sociedade, pois aí estão as mais valiosas pistas para entender o seu objeto de estudo: o homem.”

Continuando no exemplo do Holocausto, grandes fenômenos históricos também poderiam ter a sua veia psicológica de explicação. No que concerne à questão do líder e sua repercussão no comportamento individual, Daniel Goldhagen aborda a teoria dos carrascos voluntários alemães no regime nazista, e a origem histórica e psicológica do anti-semitismo na Alemanha.

Dentro da História das Mentalidades, o livro começa mostrando Wolfgang Hoffmann, capitão de um dos batalhões 101 na Polônia, se recusando a assinar uma declaração que o obrigava a não saquear. Isso ia contra a sua moral, porque seus homens jamais roubariam judeus. Mas matá-los era normal. Além disso, essa negativa, e todo o restante da argumentação do autor, deixam claro que os soldados agiam por convicção íntima, e não por medo de punição.

Goldhagen enfatiza que para entender o anti-semitismo alemão devemos buscar os moldes cognitivos que embasam o pensamento, que podem ser encontrados nas verdades axiomáticas da conversação social, das quais poucos divergem. Ou seja, como prega a Escola dos Annales, o autor usou fontes de documentação alternativas, usadas pelas pessoas no dia-a-dia, onde a mentalidade geral compartilhada se faz presente, e há a percepção sobre o mundo social que a cultura apresenta ao indivíduo.

Logo, a cultura e as motivações dos homens são todo um intrincado de fatores e elementos, que têm que ser entendidos na sua totalidade – mais ou menos como prega a Terapia Holística.

Peter Gay explica melhor a teoria das pulsões e do determinismo psíquico aplicada à história:

“As descobertas da psicanálise falam diretamente à paixão do historiador por complexidade. Isto é como as pessoas são: sacudidas por conflitos, ambivalentes em suas emoções, procurando reduzir tensões através de estratagemas defensivos, e na maior parte vagamente, ou nada, conscientes do que sentem e de que agem como o fazem – de por que sabotam as próprias carreiras, repetem casos desastrosos, amam e odeiam com uma paixão que nos momentos de sobriedade simplesmente não compreendem. Os sentimentos e as ações humanas são em grande medida sobredeterminados, inclinados a terem diversas causas e a conterem diversos significados.

Como descobridores e documentalistas da sobredeterminação, os psicanalistas e os historiadores, cada um à sua maneira, são aliados na luta contra o reducionismo, contra as explicações monocausais ingênuas e pouco elaboradas. O ponto de vista psicanalítico das pulsões dá conta tanto da sua uniformidade quanto da sua variedade; a proposição de que as pulsões formam um conglomerado unido em uma família de impulsos que busca satisfação oferece boas razões para que o historiador reconheça e analise motivos humanos de indivíduos e sociedades longínquas sem os reduzir a cópias pálidas de seus próprios traços culturais.”

Freud para Historiadores, pp. 73 e  84

          Ou seja, continuando no exemplo supracitado, seria muito simples dizer que o anti-semitismo milenar aplicado na Alemanha causou o Holocausto, assim como seria reducionista dizer que a culpa é dos alemães perpetradores. Existe toda uma gama de fatores em questão, incluindo os inconscientes.

         Mas até agora estamos falando da História Tradicional. Vejamos o que o lado espiritual pode acrescentar.

 

[1] Bloch, Marc – “The historian’s craft” pg. 151.

[2] Le Bon, Gustave – “Psicologia das multidões”. Lisboa: Abel D’Almeida, 1908.

[3] Darnton, Robert – “O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa”. Rio de Janeiro: Graal, 1986.

___________”O beijo de Lamourette. Mídia, cultura e Revolução”. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

[4] Lefebvre, Georges – “A Revolução Francesa”. São Paulo: Ibrasa, 1966.

[5] Certeau, Michel de – “A invenção do Cotidiano”. Petrópolis: Vozes, 1994.

[6] Moscovici, S. – “A representação social da Psicanálise”. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

[7] Farr, Robert – “As raízes da Psicologia Social Moderna”. Petrópolis: Vozes, 2002.

[8] Vide Fadiman, J. e Frager, R. – “Teorias da personalidade”. São Paulo: Harbra, 1986.

[9] Incluindo Animus e Anima.

[10] Contato: sabinavanderlei@terra.com.br             

 

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