O cisne negro – Negro está o mundo que vivemos…

Após assistir o filme “Cisne Negro”,  fiquei absorta em uma série de questões. Como elas não foram embora naturalmente, e ainda foram reforçadas pelas críticas que li a respeito, resolvi escrever esse artigo para compartilhar minhas preocupações.

Em primeiro lugar, quero deixar clara minha homenagem a Natalie Portman, que merece todos os prêmios possíveis pela sua atuação impecável. Essa é a parte positiva do filme.

Para explicar a parte negativa, precisarei contar um pouco do enredo. O fim é o próprio fim do ballet, amplamente conhecido, então não estarei estragando nada. Mas se não quiser saber informações prévias, assista o filme primeiro.

A história do ballet “O Lago dos Cisnes” já é quase um conto de fadas atualmente – inclusive teve sua versão com a Barbie, para as crianças. A princesa Odete é enfeitiçada, transforma-se em cisne, e precisa do amor verdadeiro para voltar a ser humana. O príncipe Zigfried se apaixona por ela. Mas é enganado por Odile, filha do feiticeiro, que se faz passar por Odete. Como ele jura amor a Odile, Odete fica condenada a ser cisne para sempre. Os dois se matam e ficam juntos, como única forma de quebrar o feitiço.

Eu, inclusive, sou apaixonada pela versão abaixo, com Anthony e Makarova, que foi feita em 1980 – cresci assistindo esse ballet, milhares de vezes.

Todas as primeiras bailarinas, assim como consta na biografia de Ana Botafogo, comentam ser um papel extremamente difícil e denso de ser executado: por ter que fazer Odete e Odine ao mesmo tempo, e pela intensidade da trama.

Pois bem, aí chegamos no filme. Nele colocou-se Odete e Odile como gêmeas, o que não é verdade: no ballet, Odile parece Odete por causa de um feitiço.

Mas enfim, o diretor, que está sendo tão aclamado, usou essa questão do duplo e do gêmeo para mergulhar Nina, a bailarina, em um profundo questionamento existencial. Odete passa a ser quem ela é: doce, meiga, perfeitinha, com comportamentos infantis. Odile passa a ser sua sombra: o sexo não feito, a droga não tomada, a fantasia não realizada.

Extremamente pressionada pelo diretor do ballet, Nina passa a vivenciar essa sombra. Até que a sombra toma conta da situação. No final das contas Nina faz o ballet perfeitamente, mas se mata no final.

Aí entram as minhas questões:

1)    Por que, para Hollywood, o confronto com a sombra normalmente está acompanhado de suicídio?

2)    Por que associar a busca do ideal com loucura?

3)    Por que a crítica valoriza sempre tantos filmes pesados?

4)    Como assim, uma pessoa foi assassinada na Letônia assistindo o filme, e ninguém faz nada? (Assim como aconteceu com “Clube da luta”, anos atrás)

5)    Por que um filme que retrata anorexia e auto flagelação está sendo aclamado pela crítica?

Para mim, a resposta é que é esse o mundo que estamos vivendo hoje.

Um mundo onde 3 mil pessoas se matam por dia, e o suicídio não é amplamente discutido nos meios de comunicação.

Um mundo onde precisou de todo esse roteiro para um filme sobre ballet fazer sucesso.

Um mundo onde as pessoas estão cada vez mais agressivas, cruéis e competitivas.

Um mundo onde as doenças mentais estão dando o maior baile nos profissionais de saúde, e estão na maioria sendo apenas abafadas ou ignoradas.

Um mundo onde tudo isso é visto como normal: adolescentes encherem a cara, pessoas se entupirem de cigarro, todos nós ingerirmos uma infinidade de carboidratos e gorduras, os divórcios serem infinitamente mais numerosos que os casamentos felizes…

Acho que me fiz clara: foi por isso que o filme me incomodou tanto.

Eu estou fazendo a minha parte para mudar essa situação. E você?

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